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Caminhos para o futuro: você já pensou no valor do seu amanhã?

A 4ª edição do Seminário Caminhos para o Futuro, organizado pela Fundação CEEE, este ano debateu o tema “Previdência complementar: o valor do seu amanhã”. Realizado no Centro de Eventos do Barra Shopping Sul, em Porto Alegre, no dia 31 de agosto, o evento contou com as palestras de Bernardo Nunes e Gustavo Cerbasi para fomentarem a discussão sobre previdência complementar, economia comportamental, finanças pessoais e aposentadoria.

Bernardo é doutor em Economia pela Universidade de Stirling, mestre em Finanças pela Nova School of Business and Economics e em Economia do Desenvolvimento pela UFRGS. Cerbasi, referência em inteligência financeira no país, é especialista em Finanças pela Stern School of Business, da New York University e pela Fundação Instituto de Administração (FIA), mestre em Administração e Finanças pela FEA/USP e formado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Primeiro a falar, antes de chegar na realidade brasileira, Bernardo organizou sua apresentação nas experiências internacionais diante do envelhecimento populacional, com foco em países europeus. Segundo ele, o sistema, nesses países, está baseado em um conjunto de três pilares – o sistema multipilar.

A experiência europeia moderna de urbanização das grandes cidades trouxe, em seu bojo, um aumento demográfico acelerado nos últimos 150 anos. Tal movimento expansivo acarretou em uma série de novas demandas socioeconômicas, provocando a necessidade de mudanças na estrutura do sistema previdenciário e de assistência social básica nestes países. O Brasil entraria no ciclo de transição do campo para a cidade apenas nos 1930, notadamente a partir de um acentuado processo de industrialização e do avanço dos direitos sociais (mesmo com o autoritarismo que norteou os dois governos de Getúlio Vargas), tendo como marco fundamental a criação das legislações trabalhista e previdenciária, completada em 1943 com a Consolidação das Leis Trabalhistas, no final do Estado Novo (1937-45).

No Reino Unido, já em 1908 foi criado o “Old Age Pensions Act”, com o objetivo de conceder pensões aos maiores de 70 anos. Em 1911 o país já tinha um sistema compulsório de contribuições sociais, constituídas por um sistema tripartite entre empregador, empregado e Estado: era o “National Insurance Act”.

Sistema multipilar

O primeiro pilar, formado pela previdência pública, fornece condições mínimas para a minimização da pobreza ao garantir uma renda básica aos trabalhadores após o encerramento da vida de trabalho. O segundo pilar, representado pelos planos ocupacionais baseados em regimes de capitalização, que são planos patrocinados com contribuição do empregador, foi implementado para diminuir a dependência da população idosa sobre as contas públicas em países como o Reino Unido, a Suécia, Nova Zelândia e a Holanda. Nestes países o sistema público passou a ser apenas uma parcela da renda na aposentadoria. Completando o sistema multipilar, de acordo com Bernardo, estão os planos pessoais e os outros investimentos a disposição dos trabalhadores.

Barreiras psicológicas

Hoje a vida de consumo é maior que a vida de trabalho, apontou Bernardo. A pirâmide se inverteu. O atual sistema público brasileiro não está mais adequado, como regime de repartição, a esta nova realidade socioeconômica e demográfica. O sistema multipilar facilita o hábito de poupança ao automatizar o processo de contribuição a partir do mecanismo de inscrição automática adotado por alguns desses países, com opção de desligamento do plano a qualquer momento pelo empregado.

Alcançado um nível de educação financeira adequado, é possível mudar também o comportamento financeiro, ou seja, colocar em prática o conhecimento adquirido? Vários fatores psicológicos, cognitivos, não-cognitivos e de conscienciosidade podem travar as ações das pessoas, como autocontrole, paciência e personalidade, para além das questões relativas a renda. Quem ganha mais não necessariamente possui o conhecimento financeiro adequado e as habilidades psicológicas esperadas para constituir reservas para o futuro.

Esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre aposentadoria

A provocação da frase acima foi a deixa inicial com a qual Gustavo Cerbasi iniciou sua palestra.

Ao mesmo tempo em que salientou a importância de manter reservas para o futuro de modo a produzir um aumento patrimonial, Cerbasi chama atenção para possíveis frustações ao poupar o que não se deve, retirando hábitos que trazem momentos de felicidade na esperança de economizar “em tudo”, gerando insatisfação e desânimo. É preciso, diz ele, conjugar as realizações presentes com as garantias futuras. Segundo Cerbasi, há um passo a passo para conseguir a tão sonhada independência financeira e ele consiste em três momentos cumulativos, conquistados ao longo de nossa fase mais ativa: educação para o trabalho, educação para empreender e educação para investir. Esse processo demanda o que ele chama de Inteligência Financeira, uma etapa de nossas vidas posterior à educação financeira, que ele considera que já alcançamos – pelo menos em parte.

A preparação financeira para a aposentadoria é, na visão de Cerbasi, um conjunto de vários momentos presentes. Esta é, aliás, a definição de futuro exposta pelo palestrante, que nada mais é que um conjunto de vários desses momentos. Para lidar com eles, é importante que se tracem estratégias, objetivos e, sem esquecer, que se permitam sonhos de consumo. Em suma, a Inteligência Financeira propõe o equilíbrio financeiro. Assim como Bernardo, Cerbasi defende a ideia de que cada indivíduo deve buscar os seus próprios meios de suavizar o seu consumo entre a sua vida de trabalho e sua vida de aposentadoria. Diante de um cenário em que as carreiras estão cada vez mais longas, a expectativa de sobrevida do brasileiro cada vez mais alta, mais do que nunca é necessário “letramento financeiro”.

Enquanto Bernardo focou mais em políticas públicas visando o aumento de redes de proteção social, Cerbasi enfatizou a independência dos investidores para constituírem o seu patrimônio com suas próprias mãos, dependendo menos ainda do Estado. Nesse sentido, as duas falas se complementaram ao confirmarem a ideia de que um sistema multipilar poderia, em fato, ser uma solução menos paliativa e mais efetiva no longo prazo da transformação demográfica brasileira que, aliás, está a pleno vapor.